US$ 7,823 bilhões. Esse foi o saldo positivo da balança comercial brasileira em maio, segundo os dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. É 10,8% mais que o superávit de maio de 2025, que fechou em US$ 7,059 bilhões.

O número desmonta, ao menos por enquanto, a narrativa de que as pressões externas estariam derrubando o comércio brasileiro. As exportações somaram US$ 31,904 bilhões em maio, crescimento de 6,6% na comparação anual. As importações ficaram em US$ 24,081 bilhões, alta de 5,3%. Exportou-se mais do que se importou — e com folga.

O que puxou o superávit

Dois produtos dominaram o resultado: a soja e o minério de cobre. A soja segue como o carro-chefe da pauta exportadora brasileira, beneficiada pela safra robusta e pela demanda chinesa. O cobre, por sua vez, vive um momento especial — a transição energética global e a demanda por data centers de inteligência artificial dispararam o preço do metal nos mercados internacionais.

Por setor, o desempenho foi desigual:

  • Agropecuária: +9,8% — liderada por soja, carne e café
  • Indústria de transformação: +9% — produtos manufaturados e semimanufaturados
  • Indústria extrativa: -1,9% — única queda, puxada por oscilação no minério de ferro

O acumulado de 2026 impressiona mais que o mês

Se o número mensal é bom, o acumulado é melhor. De janeiro a maio de 2026, o superávit comercial brasileiro alcançou US$ 32,662 bilhões — um salto de 34,2% em relação ao mesmo período de 2025. No período, as exportações somaram US$ 148,571 bilhões e as importações, US$ 115,908 bilhões.

Um terço a mais de saldo positivo em cinco meses é um dado macroeconômico relevante. Significa entrada de dólares no país, pressão de baixa sobre a cotação da moeda americana e fôlego para as reservas internacionais — fatores que ajudam a explicar por que o dólar tem se mantido na casa dos R$ 5,00, mesmo com toda a turbulência geopolítica.

A sombra das tarifas americanas

Há um ponto de atenção que os números de maio ainda não capturam. Os Estados Unidos propuseram tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com prazo de definição até 15 de julho. Se as tarifas entrarem em vigor, parte das exportações que hoje sustentam o superávit pode encarecer e perder competitividade no mercado americano.

Mas há uma blindagem natural na pauta brasileira: soja e cobre — os dois principais motores do superávit de maio — vão majoritariamente para a China, não para os EUA. O destino americano pesa mais em manufaturados, aço e produtos semielaborados. Ou seja: mesmo um tarifaço de 25% atingiria uma fatia das exportações, não o coração do superávit atual.

O que o superávit significa para o brasileiro comum

Superávit comercial pode parecer abstrato, mas tem efeitos concretos. Mais dólares entrando significa um real mais forte (ou menos pressionado), o que ajuda a conter a inflação de produtos importados — eletrônicos, combustíveis, insumos. Com o IPCA projetado em 5,09% e acima da meta, qualquer força que segure o câmbio é bem-vinda.

Por outro lado, um superávit puxado por commodities tem um custo estrutural: reforça a dependência do Brasil de produtos primários. Soja e cobre geram dólares, mas geram menos empregos qualificados e menos valor agregado do que uma economia industrializada. O número de maio é uma boa notícia de curto prazo — e um lembrete de longo prazo de que o Brasil ainda vende ao mundo, majoritariamente, o que tira da terra.

O próximo dado relevante vem em julho, quando o efeito das tarifas americanas — caso confirmadas — começar a aparecer nos números. Até lá, o superávit de US$ 32,6 bilhões acumulado é um colchão confortável para a economia brasileira atravessar a turbulência externa.