A 24ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo foi realizada na tarde deste sábado, 6 de junho, com uma mensagem que não cabe em slogan genérico de mês do orgulho. O ato cobrou justiça por Luana Barbosa dos Reis, mulher negra, lésbica e periférica, morta aos 34 anos após violência policial, e denunciou a lesbofobia e a bifobia como violências que atravessam raça, gênero, território, família, trabalho e serviços públicos.
Segundo a cobertura publicada a partir de informações da Agência Brasil, participaram da articulação grupos como a Coletiva da Visibilidade Lésbica SP, a Rede LésBi Brasil, o Lésbicas na Parada SP, a Rede Nacional Candaces, de Lésbicas e Mulheres Bissexuais Negras Feministas, e a Associação Brasileira de Lésbicas. A lista importa porque mostra que a caminhada não é um apêndice decorativo da Parada do Orgulho. É uma construção própria, com prioridades próprias e memória própria.
O ponto duro é este: quando a violência contra lésbicas e bissexuais aparece apenas dentro de uma sigla ampla, uma parte essencial do problema some. Some a especificidade da mulher que sofre machismo e lesbofobia ao mesmo tempo. Some a mulher negra que cruza racismo, misoginia e suspeição policial. Some a bissexual que é tratada como indecisa, disponível ou invisível. Some a lésbica pobre que encontra barreira no atendimento de saúde, na delegacia, na escola, no emprego e dentro da própria família.
Por que Luana Barbosa voltou ao centro
O caso de Luana Barbosa dos Reis voltou como mote porque 2026 marca dez anos de sua morte. Ela se tornou um símbolo justamente porque concentra camadas que o noticiário costuma separar: violência policial, racismo, lesbofobia, periferia e luto familiar. A caminhada não tratou Luana como uma lembrança distante, mas como uma cobrança ainda aberta. O pedido de justiça, nesse caso, é também uma acusação contra a lentidão institucional e contra a facilidade com que mortes de mulheres negras periféricas deixam de constranger o poder público.
Há uma armadilha comum nesse tipo de cobertura: transformar a vítima em ícone e encerrar a conversa ali. Isso é confortável demais. O nome de Luana não aparece apenas para comover. Aparece para perguntar o que mudou na abordagem policial, no reconhecimento da lesbofobia, na produção de dados, na proteção de mulheres lésbicas e bissexuais e na responsabilização de agentes do Estado quando a violência parte de quem deveria proteger.
O ato também insistiu em uma formulação que movimentos lésbicos defendem há anos: lesbofobia não é um detalhe da homofobia. Ela tem lógica própria. Envolve apagamento afetivo, sexualização forçada, hostilidade familiar, exclusão de políticas de saúde, violência em espaços públicos e, nos casos extremos, morte. A bifobia acrescenta outra camada de desconfiança e negação, com a pessoa bissexual muitas vezes empurrada para a invisibilidade ou reduzida a estereótipos.
| Fato confirmado | O que significa |
|---|---|
| 24ª edição da caminhada | O ato tem trajetória própria e consolidada em São Paulo. |
| Realização em 6 de junho | A mobilização ocorreu na véspera da Parada do Orgulho LGBT+ da cidade. |
| Tema ligado a Luana Barbosa | O protesto marcou dez anos da morte da jovem negra e lésbica. |
| Participação de coletivos nacionais e locais | A pauta articula memória, direitos, raça, gênero e segurança pública. |
| Denúncia de lesbofobia e bifobia | A caminhada defende que essas violências tenham visibilidade específica. |
A caminhada não é bastidor da Parada
São Paulo tem uma das maiores Paradas do Orgulho LGBT+ do mundo, o que traz visibilidade, turismo, patrocínio e disputa política. Mas eventos menores em tamanho podem ser maiores em precisão. A Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais existe justamente para não deixar que demandas específicas sejam engolidas por uma agenda mais ampla, mais midiática e, muitas vezes, mais confortável para marcas e governos.
Essa diferença não é vaidade de movimento social. É método. Uma mulher lésbica ou bissexual pode enfrentar violência doméstica sem encontrar acolhimento adequado, pode passar por atendimento ginecológico em que sua orientação sexual é ignorada, pode ser assediada em nome de uma suposta correção, pode ser expulsa de casa, pode ser invisibilizada em pesquisas e pode não aparecer nos dados oficiais como deveria. Sem nomear o problema, o Estado finge que ele é menor do que é.
A cobertura do ato cita ainda a edição mais recente do LesboCenso ao falar de discriminação em espaços públicos, invisibilidade de relacionamentos, violência verbal, isolamento e assédio sexual. O dado principal aqui não é um número isolado. É o padrão. Quando diferentes relatos apontam para as mesmas formas de violência, a resposta pública não pode ser apenas campanha de junho, foto em rede social e iluminação colorida em prédio oficial.
O que o poder público precisa responder
A demanda mais básica é produzir política pública com dados melhores. Sem dados, a violência vira impressão. Com dados ruins, vira desculpa. O Brasil ainda tem dificuldade para registrar corretamente crimes e violações motivados por orientação sexual, identidade de gênero, raça e gênero ao mesmo tempo. Essa falha não é neutra. Ela protege a omissão, porque aquilo que não é contado raramente vira orçamento, meta, treinamento ou protocolo.
Na segurança pública, o caso Luana Barbosa mantém uma pergunta incômoda: como abordagens policiais lidam com mulheres negras, lésbicas e periféricas? Não basta dizer que excessos são exceção. É preciso haver formação, controle externo, transparência, responsabilização e escuta das comunidades afetadas. Sem isso, a promessa de proteção vira uma palavra vazia para quem tem medo justamente de quem usa uniforme.
Na saúde, a exigência é menos abstrata do que parece. Atendimento inclusivo significa perguntar sem presumir, acolher sem ridicularizar, orientar sem transformar a paciente em aula improvisada para o profissional. Mulheres lésbicas e bissexuais não podem depender da sorte de encontrar alguém preparado. O serviço público precisa funcionar para elas como funciona para qualquer cidadã: com informação correta, respeito e continuidade.
Quando uma caminhada precisa repetir por 24 edições que lésbicas e bissexuais existem, o problema não é falta de evento. É falta de resposta institucional.
Memória também é política
O uso do nome de Luana Barbosa no centro da mobilização mostra que memória não é ornamento. É uma forma de impedir que mortes sejam arquivadas no imaginário público. Movimentos sociais sabem que o esquecimento é uma segunda violência: primeiro se perde a vida, depois se perde o nome, depois se perde o contexto, depois sobra apenas uma estatística mal preenchida.
Por isso, a caminhada combina denúncia e presença. Estar na rua, com coletivos, faixas, corpos e nomes, cria uma cena pública que obriga a cidade a olhar. Não resolve sozinha. Não substitui processo, orçamento, investigação ou política pública. Mas impede que a discussão seja empurrada para salas fechadas, relatórios ignorados e promessas de campanha que evaporam depois de junho.
O fato concreto é simples e pesado: a 24ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo saiu às ruas em 2026 para cobrar justiça por Luana Barbosa e denunciar violências específicas contra lésbicas e bissexuais. O resto é consequência política. Ou o Estado transforma essa cobrança em protocolo, dado, proteção e responsabilização, ou a próxima edição voltará a dizer o mesmo, com mais um ano de atraso na conta.
