O país convive com uma contradição previsível: corticoides são úteis, comuns e muitas vezes eficazes, mas a facilidade de acesso abre espaço para um uso desleixado. O alerta publicado pela Agência Brasil neste domingo, 7 de junho, coloca a questão no centro de um problema de saúde pública. Segundo Roberto Murad Vessani, presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma, o uso inadequado e sem acompanhamento médico pode levar ao desenvolvimento ou ao agravamento do glaucoma.

Glaucoma não é irritação passageira, nem incômodo pequeno. É uma doença que afeta o nervo óptico, geralmente associada ao aumento da pressão ocular. Não tem cura. Quando fica sem diagnóstico, sem controle ou sem tratamento, pode levar à cegueira. A parte mais dura é que a perda visual causada pela lesão no nervo óptico não volta.

As estimativas citadas pela reportagem apontam pelo menos 1,7 milhão de brasileiros convivendo com a doença. Entre pessoas acima dos 40 anos, a prevalência fica na faixa de 2,5% a 3,5%. A partir dessa idade, segundo Vessani, a prevalência praticamente dobra a cada década. Ou seja: o risco cresce justamente no grupo que também tende a usar mais remédios para problemas crônicos.

O perigo não está só no colírio

A imagem mais óbvia é a do colírio usado por conta própria para aliviar vermelhidão, coceira ou irritação nos olhos. Mas o alerta das entidades médicas é mais amplo. Corticoides aparecem em pomadas, comprimidos e fórmulas usadas para alergias, crises respiratórias, sinusites, dores inflamatórias e outras condições. O remédio reduz inflamação e costuma dar alívio rápido. Esse é justamente o ponto que alimenta o risco: quando o sintoma volta, muita gente repete a dose sem passar por avaliação.

Com uso prolongado, os corticoides podem mexer no funcionamento natural dos olhos. Eles podem dificultar a drenagem do líquido que circula dentro do globo ocular. Quando esse líquido se acumula, a pressão intraocular sobe. Se essa pressão fica alta por tempo suficiente, o nervo óptico pode sofrer lesões irreversíveis. A sequência é conhecida pelos oftalmologistas, mas nem sempre é percebida por quem compra o medicamento como se fosse solução simples de farmácia.

O risco é ainda maior para quem já tem glaucoma. Vessani afirma que cerca de 90% dos pacientes com a doença são sensíveis ao uso de corticoide, o que pode elevar a pressão ocular de forma significativa e piorar um quadro que já exige controle permanente. A recomendação das entidades é monitorar a pressão intraocular em pacientes que usam essas medicações por períodos prolongados, especialmente crianças e grupos de risco.

Crianças, idosos e pacientes crônicos entram no radar

O caso das crianças é particularmente sensível. Crianças com alergia ocular podem receber, por decisão dos pais ou por repetição de uma prescrição antiga, colírios com corticoide de forma crônica. O resultado pode ser aumento da pressão ocular ou até catarata precoce. Não é um cenário abstrato: é o tipo de risco que nasce de uma rotina doméstica aparentemente inofensiva, em que um produto que funcionou uma vez vira resposta automática.

Nos idosos, o problema muda de escala. Pacientes de 70 ou 80 anos podem ter glaucoma e, ao mesmo tempo, precisar de corticoides para outras condições de saúde. Ortopedia, reumatologia, pediatria, geriatria e outras áreas prescrevem essas substâncias quando há indicação. A crítica não é ao uso médico do medicamento. O ponto é que o olho precisa entrar na conversa, especialmente quando o uso é recorrente ou prolongado.

Fato citado pelas entidadesPor que importa
Ao menos 1,7 milhão de brasileiros têm glaucomaA doença não é rara e pode avançar sem alarde
2,5% a 3,5% dos maiores de 40 anos já têm glaucomaO risco aumenta em uma faixa etária que usa mais medicamentos
Cerca de 90% dos pacientes com glaucoma são sensíveis a corticoidesO remédio pode elevar a pressão ocular e agravar o quadro
A prevalência quase dobra a cada década após os 40 anosIdade e uso crônico de medicamentos tornam o acompanhamento mais importante

Entidades querem controle parecido com antibióticos

A Sociedade Brasileira de Glaucoma, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica enviaram uma nota pública à Anvisa, ao Ministério da Saúde, ao Congresso Nacional e a entidades médicas. O pedido é chamar atenção para os riscos do uso indiscriminado de fórmulas com corticoides e discutir uma forma de controle mais rígida.

É um problema de saúde pública.

A comparação feita por Vessani é direta: os corticoides deveriam ter controle semelhante ao dos antibióticos. No caso dos antibióticos, há exigência de receita em duas vias, com retenção pela farmácia e registro da prescrição. Para as sociedades médicas, esse caminho reduziria a compra por impulso, o autotratamento e a repetição de fórmulas sem avaliação profissional.

O tema também passa por educação médica e informação ao público. As entidades dizem buscar campanhas para alertar outras especialidades sobre o risco ocular do uso crônico de corticoides. Isso não transforma todo corticoide em vilão. O remédio tem função clara quando bem indicado. O problema é vender e usar uma substância potente como se fosse apenas um atalho barato contra qualquer inflamação.

O recado prático

Para quem usa corticoide por poucos dias, com prescrição e acompanhamento, a discussão é diferente. Para quem guarda colírio em casa, repete pomada antiga, compra comprimido sem receita ou passa semanas usando a mesma fórmula, o alerta é objetivo: pare de tratar sintoma recorrente como se fosse detalhe. Olho vermelho, alergia persistente, dor inflamatória e crise respiratória precisam de diagnóstico, não de improviso eterno.

Também não há motivo para pânico. Há motivo para controle. Quem precisa usar corticoide por mais tempo deve avisar o médico sobre histórico de glaucoma, fazer acompanhamento quando indicado e medir a pressão intraocular se estiver em grupo de risco. A cegueira evitável não costuma começar com uma decisão dramática. Muitas vezes começa com uma compra comum, uma receita reaproveitada e a falsa sensação de que alívio rápido é o mesmo que tratamento seguro.