O encontro de jovens na Fundição Progresso, no centro do Rio de Janeiro, não foi uma roda de conversa abstrata sobre futuro. Foi uma tentativa de colocar na mesa internacional uma conta que o Brasil empurra há décadas: saneamento básico, acesso à água e adaptação climática nas periferias. Segundo a Agência Brasil, jovens de bairros periféricos e comunidades vulnerabilizadas participaram neste sábado, 6 de junho, de painéis sobre direito à água, saneamento e resiliência climática.
A reunião foi organizada pela Águas Resilientes e deve terminar com a produção da Declaração das Juventudes. O documento será enviado a autoridades brasileiras e à Conferência de Águas da Organização das Nações Unidas, que acontecerá nos Emirados Árabes Unidos entre 2 e 4 de dezembro. O evento é tratado como o principal encontro global sobre o tema e busca fortalecer a governança da água na agenda internacional.
A escolha do local tem simbolismo fácil, mas útil. A Fundição Progresso fica ao lado dos Arcos da Lapa, antigo aqueduto colonial construído para levar água à cidade. Séculos depois, o debate ainda é o mesmo, só que com outra escala: quem recebe água segura, quem convive com esgoto aberto, quem perde tudo em enchente e quem é chamado para decidir políticas públicas.
A carta quer furar a bolha técnica
Água costuma virar assunto de especialistas, planilhas e metas regulatórias. Isso é necessário, mas insuficiente. A carta dos jovens tenta puxar o tema para onde ele dói: casa, escola, saúde, comida, deslocamento e segurança. A ativista Johari Silva, da Ação da Cidadania, resumiu o ponto em uma frase simples: sem água, não há dignidade.
A fala é direta porque o problema é direto. Falta de água segura e esgoto tratado não é desconforto passageiro. É doença, evasão escolar, gasto doméstico, perda de tempo, violência ambiental e vulnerabilidade em dia de chuva forte. Quando a crise climática aumenta extremos de chuva e seca, a ausência de saneamento deixa de ser só atraso histórico. Vira multiplicador de desastre.
A diretora de Planejamento da Águas Resilientes, Verena Meirelles, defendeu que ouvir quem vive as dificuldades de acesso à água é parte da estratégia. Essa premissa parece óbvia, mas contraria uma prática comum: políticas desenhadas longe das pessoas afetadas. Em saneamento, isso costuma produzir obra mal localizada, serviço que não chega ao território e linguagem pública que ninguém entende.
Quando a política da água ignora quem carrega balde, perde aula por falta de estrutura ou vê esgoto correr na porta, ela deixa de ser política pública e vira peça de gabinete.
Os números mostram o tamanho do buraco
O Brasil tem meta legal de universalizar o saneamento até o fim de 2033. Pelo Marco Legal do Saneamento, isso significa alcançar 99% da população com acesso à água tratada e 90% com coleta e tratamento de esgoto. A distância até esse objetivo ainda é grande.
| Indicador citado | Situação informada |
|---|---|
| Meta de água tratada até 2033 | 99% da população |
| Meta de coleta e tratamento de esgoto até 2033 | 90% da população |
| Atendimento com rede de água | 84,1% da população |
| Atendimento com rede coletora de esgoto | 62,3% da população |
| Volume de esgoto tratado | 51,8% do esgoto gerado |
| Investimento anual citado para atingir a meta | R$ 114 bilhões por ano |
| Estimativa acumulada da ANA até 2033 | Até R$ 900 bilhões |
Os dados citados no evento mostram que 84,1% da população é atendida por rede de abastecimento de água. Na coleta de esgoto, o percentual cai para 62,3%. Quando se olha o volume de esgoto efetivamente tratado, o número desce para 51,8%. A diferença entre ter cano, coletar e tratar é justamente onde muita propaganda pública tenta se esconder.
A especialista em planejamento urbano Andrea Pulici trouxe outra camada: o custo da universalização. Ela mencionou a necessidade de investimentos de R$ 114 bilhões por ano para cumprir a meta, valor alinhado à estimativa já divulgada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, que projeta até R$ 900 bilhões em 2033. É dinheiro enorme. Mas a pergunta incômoda é o custo de não fazer.
Não fazer também custa. Custa internação por doença evitável, dia de trabalho perdido, criança faltando à escola, casa destruída por inundação, rio morto, turismo inviável e comida mais cara quando eventos climáticos atingem produção e logística. O orçamento público geralmente enxerga obra; a vida real enxerga ausência de obra.
Juventude não quer só plateia
O fundador da Águas Resilientes, Erleyvaldo Bispo, apontou que a declaração é uma forma de mostrar a importância da valorização da água e colocar Brasil, América Latina e Caribe no centro do debate. Ele citou que 2,2 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso a uma fonte segura de água e que, no Brasil, são aproximadamente 35 milhões.
Esse recorte importa porque a falta de água segura não está distribuída por acaso. Ela pesa mais sobre periferias urbanas, comunidades tradicionais, povos indígenas, ribeirinhos e territórios rurais menos atendidos. A ativista Johari Silva defendeu que diplomacia climática não pode ficar restrita a governos e empresas. Precisa ouvir quem é impactado diretamente.
A gerente de programas para democracia na América Latina da Open Society Foundations, Sylvia Siqueira, disse aos participantes que jovens não são apenas o futuro, mas referências para que o futuro exista. A frase tem tom inspirador, mas o pano de fundo é prático: sem participação social, a política de água tende a repetir os mesmos filtros de sempre.
Também participou do debate o cientista político Matheus Marlisson, que classificou a crise climática como o maior desafio deste milênio. Ele defendeu que o Brasil tem lugar de destaque na diplomacia global sobre água e meio ambiente, desde que consiga unir proteção ambiental, desenvolvimento justo e participação social.
O Brasil tem argumento, mas precisa entregar
O Brasil gosta de se apresentar como potência ambiental. Em água, tem base para isso: bacias relevantes, biodiversidade, Amazônia, experiência de comunidades ribeirinhas, ciência acumulada e peso diplomático. Mas nenhum discurso internacional compensa esgoto correndo a céu aberto em território vulnerável.
A carta dos jovens pode ajudar a levar ao encontro da ONU uma cobrança mais difícil de empacotar: água não é só recurso natural, é infraestrutura social. O país que quer liderar conversa climática precisa mostrar como vai proteger quem mora em área de enchente, quem depende de abastecimento irregular, quem vive sem coleta de esgoto e quem fica fora das decisões.
Esse é o ponto político da Declaração das Juventudes. Ela não substitui investimento, regulação, obra, fiscalização e capacidade técnica. Mas pode forçar uma pergunta que costuma sumir nos painéis elegantes: quem está pagando a conta enquanto a universalização não chega?
Até 2033, o Brasil tem menos de oito anos para cumprir metas que exigem dinheiro pesado, coordenação federativa e execução local. A carta que sairá do Rio não resolve esse buraco. Mas se conseguir levar as vozes das periferias para a Conferência da Água, já cumpre uma função concreta: lembrar que governança da água sem gente afetada na mesa é só gestão de escassez com linguagem bonita.
