O segundo turno presidencial do Peru ocorre neste domingo, 7 de junho de 2026, com uma escolha que concentra duas marcas fortes da politica recente do pais: a volta do sobrenome Fujimori ao centro da disputa e a tentativa de Roberto Sanchez de transformar a irritacao social em voto contra a direita tradicional.

Segundo a Associated Press, os peruanos votam com a criminalidade no topo das preocupacoes. Nao e um detalhe de campanha. E o eixo em torno do qual os dois candidatos tentaram organizar suas promessas, cada um a seu modo. Em um pais onde extorsoes, assaltos e violencia urbana viraram assunto diario, a eleicao deixou de ser apenas uma discussao sobre economia ou ideologia.

Keiko Fujimori chegou ao segundo turno como a candidata mais votada na primeira rodada. Os resultados oficiais de abril apontaram 17% dos votos para ela. Roberto Sanchez ficou em segundo, com 12%. Esses numeros mostram uma coisa antes de qualquer leitura partidaria: nenhum dos dois entrou na etapa final carregado por uma maioria solida. O Peru esta escolhendo presidente depois de uma primeira fase pulverizada.

Uma disputa sem mandato emocional claro

O dado mais importante da eleicao talvez seja justamente a fraqueza relativa dos finalistas. Uma candidata com 17% e um rival com 12% nao representam uma onda nacional. Representam sobreviventes de um sistema politico fraturado, em que muitos eleitores votaram dispersos e agora precisam escolher entre duas alternativas que carregam rejeicoes fortes.

Fujimori tenta vender uma imagem de ordem. A estrategia e direta: associar seu nome ao combate ao crime e recuperar, em parte, a memoria de autoridade ligada ao governo de seu pai, Alberto Fujimori. No unico debate antes do segundo turno, ela defendeu o governo paterno e prometeu derrotar o crime como, segundo sua narrativa, ele derrotou o Sendero Luminoso.

Essa promessa fala com uma parte real do eleitorado. Quando a inseguranca domina a vida cotidiana, propostas duras ganham apelo. Mas tambem reacende a parte mais pesada do fujimorismo: autoritarismo, abusos de poder e uma historia que divide o Peru ha decadas. Keiko nao disputa apenas contra Sanchez. Disputa contra o proprio sobrenome.

Sanchez, por sua vez, tenta se apresentar como alternativa nacionalista e mais ligada ao campo popular. Ex-ministro e congressista, ele ocupa o espaco de quem promete mudar o rumo politico, mas tambem precisa convencer um eleitorado desconfiado de mais uma experiencia de instabilidade. No Peru recente, prometer ruptura e facil. Governar depois dela tem sido outra historia.

Crime virou a linguagem comum da campanha

A campanha foi marcada por uma convergencia incômoda: direita e esquerda tiveram de falar de seguranca. O pais atravessa uma crise de confianca em que a promessa abstrata de crescimento economico ja nao basta. Para muitos eleitores, o problema imediato nao e uma planilha macroeconomica, mas sair para trabalhar sem virar alvo de extorsao ou violencia.

A AP descreve o crime como a grande preocupacao da votacao. Esse enquadramento ajuda a entender por que Fujimori apostou tanto em uma retorica de mao firme. Tambem explica por que Sanchez nao pode se limitar a bandeiras sociais tradicionais. Quem vencer tera de entregar respostas concretas em seguranca publica, e rapido.

O risco e que a urgencia produza atalhos ruins. O Peru conhece bem o custo de concentrar poder em nome da ordem. Tambem conhece o custo de governos fracos, incapazes de controlar o territorio e de coordenar policia, Justica e politica social. O eleitor esta sendo empurrado para uma escolha dificil: autoridade sem abuso ou mudanca sem improviso. Nenhuma das duas esta garantida.

Um sistema politico em desgaste

A eleicao tambem ocorre num ambiente de fadiga institucional. O Peru passou por uma sequencia de presidentes removidos, governos curtos e crises de legitimidade. A primeira rodada deste ano ainda teve atraso na confirmacao dos resultados, o que alimentou desconfianca sobre o processo eleitoral.

A Reuters relatou, em sua previa do segundo turno, que a apuracao da primeira fase levou quase um mes para ser confirmada e que a propria autoridade eleitoral reconheceu queda de confianca no sistema depois dos atrasos. Isso importa porque uma eleicao apertada em um pais desconfiado e terreno fertil para contestacoes.

Ha ainda uma mudanca estrutural no Congresso. A eleicao de abril reinstalou um Legislativo bicameral, com Camara de 130 cadeiras e Senado de 60 cadeiras, segundo a Reuters. Isso pode reorganizar a relacao entre Executivo e Congresso, mas tambem pode ampliar a disputa de poder se o presidente eleito nao construir maioria minima.

O historico peruano recente nao permite romantismo. Presidentes sem base parlamentar viraram refens de crises sucessivas. Congressos com excesso de poder derrubaram governos e aprofundaram a percepcao de que a politica funciona mais como maquina de bloqueio do que como mecanismo de solucao.

O que esta em jogo para a regiao

Para a America do Sul, a eleicao peruana importa porque o pais e um termometro de uma crise mais ampla: inseguranca, desencanto democratico e polarizacao em sistemas partidarios fracos. O vencedor tera de governar um pais onde a paciencia acabou antes mesmo da posse.

Se Fujimori vencer, o Peru pode caminhar para uma agenda mais dura em seguranca e mais conservadora na politica interna. Se Sanchez vencer, o pais pode testar uma nova tentativa de governo nacionalista, num contexto em que a governabilidade sera o primeiro obstaculo. Em ambos os casos, o desafio nao sera apenas ganhar. Sera sobreviver politicamente sem empurrar o Peru para outra crise.

A votacao obrigatoria deve levar milhoes de peruanos as urnas. Mas comparecimento nao significa entusiasmo. A eleicao deste domingo parece menos uma celebracao democratica e mais uma cobranca: o pais quer ordem, quer estabilidade e quer um governo que dure. Depois de tantos tombos politicos, essa ja seria uma promessa enorme.