A abertura da Copa do Mundo de 2026 está marcada para 11 de junho, na Cidade do México. A capital mexicana deveria estar entrando na fase de festa, logística fina e propaganda internacional. Em vez disso, entrou também numa semana de pressão social. Segundo a Associated Press, integrantes da CNTE, sindicato de professores do país, bloquearam vias importantes da cidade para cobrar melhores condições de trabalho. Famílias de pessoas desaparecidas, grupos de defesa animal e outros movimentos se somaram ao ambiente de cobrança pública.

Isso não é detalhe lateral da Copa. É exatamente o tipo de tensão que grandes eventos costumam empurrar para debaixo do tapete. O governo quer ruas limpas, imagens coloridas, turistas circulando e cerimônia organizada. Movimentos sociais querem salários, aposentadorias, respostas sobre desaparecimentos e atenção para problemas que não entram no vídeo promocional. A Copa oferece ao México uma vitrine global. E vitrine global serve tanto para vender a imagem oficial quanto para expor rachaduras.

A AP descreveu uma capital parcialmente travada durante a semana. Manifestantes da CNTE bloquearam corredores centrais, derrubaram figuras de jogadores ligadas à Copa, entraram em um prédio do governo e, na sexta-feira, fizeram uma partida de futebol numa rua interditada. Ao mesmo tempo, visitantes estrangeiros começavam a chegar para o torneio. A colisão visual é forte: de um lado, a preparação para receber o mundo; de outro, trabalhadores e famílias tentando obrigar o Estado a olhar para dentro.

A Copa virou instrumento de pressão

Abel Escalante, psicólogo de educação especial de 52 anos que viajou do estado de Chiapas para protestar, resumiu a lógica do movimento à AP: a proximidade da Copa aumenta a pressão sobre o governo. A frase é honesta porque não tenta fingir que o calendário é coincidência. Não é. O Mundial cria constrangimento. Ninguém no poder quer que a narrativa de abertura seja dominada por bloqueios, desaparecidos, custo de vida e professores acampados em pontos simbólicos da cidade.

Esse cálculo é antigo. Olimpíadas, Copas e grandes cúpulas internacionais sempre atraem protestos porque concentram mídia, autoridades, turistas e dinheiro público. O que muda no México é a combinação entre uma cultura de mobilização muito forte e uma cidade que vai receber a partida de abertura do maior torneio de futebol do planeta. A Cidade do México, Guadalajara e Monterrey terão jogos. A capital, além disso, será a porta de entrada simbólica do Mundial coorganizado por México, Estados Unidos e Canadá.

O governo de Claudia Sheinbaum respondeu tentando manter duas linhas ao mesmo tempo. Na sexta-feira, a presidente disse que a porta está aberta para negociação com professores sobre demandas ligadas a aposentadoria. Também acusou grupos que invadiram um prédio público de tentar provocar uma reação violenta das autoridades, reação que, segundo ela, não ocorreria. Sheinbaum ainda prometeu que o Zócalo, praça central que os professores tentaram ocupar no fim de maio para manter um acampamento, seguirá aberto para eventos da Copa.

O problema não cabe no marketing

A crítica dos movimentos é que o governo estaria priorizando a celebração internacional enquanto problemas sociais continuam sem resposta satisfatória. A AP citou dois focos especialmente sensíveis: o custo de vida pressionado em parte pelo turismo estrangeiro e a crise de desaparecimentos forçados. Famílias que procuram parentes espalharam cartazes com rostos de desaparecidos pela cidade no fim de semana anterior. Em uma ponte recém-pintada de roxo, apareceu a frase em espanhol que acusava o México de ser campeão em desaparecimentos.

O número citado pela AP é brutal: famílias de cerca de 130 mil pessoas desaparecidas estão entre os grupos que usam o momento da Copa para pressionar autoridades. Algumas agências e legendas de fotos falam em mais de 134 mil desaparecidos. A diferença entre os recortes não muda o essencial. O país chega ao Mundial com uma ferida enorme, pública e impossível de esconder apenas com tinta nova, flores e mascotes urbanos.

A prefeitura e autoridades locais têm tentado embelezar a cidade. Pontes foram pintadas em roxo vivo, flores de cempasúchil foram plantadas e ruas receberam imagens de axolotes, espécie ameaçada que virou uma espécie de símbolo visual da capital. Não há problema em preparar a cidade para visitantes. O problema é achar que decoração resolve conflito social. Para quem busca um parente desaparecido ou para quem está em greve por condições de trabalho, a cidade enfeitada pode soar menos como festa e mais como apagamento.

PontoFato confirmado
EventoCopa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho na Cidade do México
Grupos nas ruasProfessores da CNTE, famílias de desaparecidos, ativistas e outros movimentos
Ações relatadasBloqueios de vias, queda de figuras da Copa e entrada em prédio do governo
Resposta oficialSheinbaum disse que há porta aberta para negociar com professores
Praça centralGoverno promete manter o Zócalo aberto para eventos da Copa

O risco para Sheinbaum

Para Sheinbaum, o risco não é apenas uma semana ruim de trânsito. É a imagem política. Ela governa um país que quer mostrar capacidade de organização, segurança e hospitalidade em escala mundial. Mas também governa um país onde sindicatos e famílias de vítimas sabem ocupar espaço público, onde desaparecimentos seguem como trauma nacional e onde o custo de vida em áreas turísticas alimenta ressentimento. A Copa não cria essas tensões. Ela só as coloca sob luz mais forte.

O dilema do governo é delicado. Reprimir protestos perto da abertura poderia gerar imagens piores do que os bloqueios. Ignorar as demandas também cobra preço, porque reforça a ideia de que o Mundial importa mais do que a vida comum. Negociar sob pressão, por sua vez, pode estimular novos grupos a usar o calendário da Copa como ferramenta de barganha. Nenhuma opção é limpa. É por isso que grandes eventos são politicamente arriscados: o controle da narrativa dura pouco quando a rua decide falar.

Há ainda o componente econômico. A Copa atrai turistas com alto poder de compra, imprensa internacional e patrocínios. Para setores de hotelaria, restaurantes e transporte, isso pode significar receita. Para moradores que já sentem aluguel, preços e serviços pressionados, pode significar mais exclusão. Quando Escalante disse que o evento não seria para o povo mexicano, mas para gente com renda disponível, ele tocou num ponto que aparece em várias cidades-sede: quem paga a transformação urbana nem sempre é quem aproveita a festa.

O futebol começa antes do apito

O jogo de abertura ainda não foi disputado, mas a Copa já está em campo como símbolo. Para a FIFA e para os governos anfitriões, ela representa espetáculo, turismo e integração continental. Para os manifestantes na Cidade do México, virou uma chance de fazer barulho quando o mundo está olhando. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Um grande evento pode gerar festa legítima e, ao mesmo tempo, revelar prioridades tortas.

A leitura mais honesta é não romantizar nenhum lado. Protestos podem atrapalhar moradores que só querem circular e trabalhar. Governos têm obrigação de manter ordem e segurança em eventos desse tamanho. Mas também é ingênuo tratar bloqueios e cartazes como inconveniente isolado, sem olhar para o que os produziu. Professores não atravessam o país para dormir em rua porque querem estragar uma cerimônia. Famílias não colam rostos de desaparecidos em muros decorados porque odeiam futebol. Elas fazem isso porque, no calendário normal, muitas vezes ninguém escuta.

A Copa não inventou a crise social mexicana. Ela apenas criou o palco mais visível para uma cobrança que já existia.

Nos próximos dias, o governo mexicano tentará entregar uma abertura funcional, preservar o Zócalo para os eventos e evitar cenas de confronto. Os movimentos tentarão manter pressão até serem recebidos ou até ganhar algum compromisso concreto. A FIFA acompanhará o que puder afetar a imagem do torneio. Turistas chegarão buscando futebol. Moradores tentarão atravessar a própria cidade. Essa é a Copa real antes da Copa televisionada: festa, dinheiro, política, dor social e disputa de narrativa no mesmo espaço urbano.

Se o México conseguir organizar a abertura sem violência e com negociação mínima, Sheinbaum ganha fôlego. Se a semana virar sequência de bloqueios, invasões e respostas improvisadas, a primeira imagem do Mundial de 2026 pode ser menos sobre bola rolando e mais sobre um país lembrando ao mundo que seus problemas não ficaram do lado de fora do estádio.