A Anthropic, criadora do assistente de inteligência artificial Claude, deu em 1º de junho o passo que o mercado esperava: protocolou na SEC um pedido confidencial de abertura de capital. O número que acompanha o pedido impressiona — um valuation de US$ 965 bilhões, à beira da marca simbólica de US$ 1 trilhão e, segundo as primeiras informações, acima do da rival OpenAI.

Para uma empresa que poucos anos atrás era uma startup desconhecida do grande público, é um salto vertiginoso. E ele se apoia num crescimento de receita que explica boa parte do entusiasmo de Wall Street.

Os números que sustentam o valuation

O que faz uma empresa valer quase US$ 1 trilhão antes mesmo de abrir o capital? No caso da Anthropic, a resposta está na velocidade da receita. Veja os dados que circulam a partir do processo:

Indicador Valor
Valuation no pedido US$ 965 bilhões
Receita anualizada (maio/2026) US$ 47 bilhões
Faturamento anual (2025) US$ 10 bilhões
Última rodada (Series H) US$ 65 bilhões captados

O salto da receita anualizada — de US$ 10 bilhões em 2025 para cerca de US$ 47 bilhões em maio de 2026 — significa que o faturamento quase quintuplicou em um ano. É esse tipo de curva que justifica, aos olhos dos investidores, um preço tão alto. Resta saber se a curva continua subindo no mesmo ritmo depois que a empresa estiver exposta ao escrutínio trimestral da bolsa.

O que é um IPO confidencial

Vale desfazer uma confusão comum: protocolar de forma confidencial não é o mesmo que abrir o capital. É mais como tirar a senha e entrar na fila. Pela regra americana, a empresa só precisa entregar o prospecto oficial aos investidores 15 dias antes de começar o roadshow — a rodada de apresentações que antecede a estreia.

Na prática, o recado é "agora temos a opção", não "vamos abrir amanhã". O formato confidencial permite preparar o terreno, sentir o apetite do mercado e ajustar a estratégia sem expor números ao concorrente antes da hora. A Anthropic ganhou flexibilidade — e tempo.

O protocolo confidencial não marca a estreia na bolsa: a empresa só precisa divulgar o prospecto oficial 15 dias antes do roadshow. É a opção de abrir capital, não a data.

Três gigantes na mesma janela

A Anthropic não está sozinha na corrida. A OpenAI prepara seu próprio S-1 confidencial, e a SpaceX, de Elon Musk, já foi além: divulgou o prospecto público em 20 de maio e entrou em roadshow. Três das empresas mais comentadas dos últimos anos caminham para o mercado praticamente ao mesmo tempo — um congestionamento raríssimo de estreias bilionárias.

Há até um nó entre elas. Em maio, a Anthropic fechou contrato para usar capacidade de computação do data center Colossus 1, da SpaceX, em Memphis. Pelo prospecto da própria SpaceX, o acordo vale US$ 1,25 bilhão por mês até maio de 2029 — um lembrete de que toda essa IA precisa de uma quantidade colossal de máquinas rodando, o que conversa com a corrida por data centers que também chegou ao Brasil.

O outro lado: e se for bolha?

Nem todo mundo aplaude. Vozes de peso do mercado financeiro vêm alertando que a euforia com a IA pode ter ido longe demais. O bilionário Ray Dalio, por exemplo, já comparou o momento ao início de uma bolha — daquelas que inflam com promessa e desinflam quando chega a hora de provar lucro.

Valuations de quase US$ 1 trilhão para empresas que ainda queimam caixa para crescer são exatamente o tipo de coisa que divide otimistas e céticos. Uma estreia em bolsa põe esse debate à prova em público: o mercado vai precificar o futuro da IA com base em resultado, não só em narrativa. O IPO da Anthropic será um dos termômetros.

O que esperar a seguir

Com o pedido protocolado, o calendário passa a depender da empresa e do humor do mercado. Se as condições forem favoráveis, a estreia pode sair ainda em 2026; se o apetite esfriar, o formato confidencial permite esperar. A decisão de quando puxar o gatilho dirá muito sobre o quanto Wall Street ainda acredita na onda da inteligência artificial.

Para o investidor brasileiro, é mais um capítulo de uma temporada de IPOs de tecnologia que mexe com fundos, índices e com o apetite global por risco. A pergunta de fundo segue a mesma: a IA é o novo motor da economia ou a próxima bolha à espera de um alfinete? A Anthropic acaba de entrar na fila para responder. Acompanhe mais de Tecnologia → no KronGazeta.