US$ 135 por ação. US$ 75 bilhões captados. US$ 1,77 trilhão de valuation. Nenhuma empresa na história do mercado de capitais abriu o capital com números assim — nem a Alibaba, que levantou US$ 25 bilhões em 2014 e até ontem era o maior IPO já registrado.
A SpaceX confirmou o preço de sua ação nesta terça-feira e entra na Nasdaq na próxima quinta (12/junho) sob o ticker SPCX. A demanda foi tão alta que a empresa adotou uma abordagem incomum: em vez de divulgar uma faixa indicativa e ajustar o preço conforme o roadshow, foi direto ao ponto — US$ 135 fixos, sem negociação. Isso diz algo sobre o nível de interesse dos investidores institucionais.
O que a SpaceX vai fazer com US$ 75 bilhões
O prospecto divulgado à SEC detalha que os recursos vão principalmente para três frentes: expansão da frota Starship (o foguete reutilizável de longo alcance), crescimento da rede de satélites Starlink — que já tem mais de 7.000 satélites em órbita e ultrapassa 4 milhões de assinantes pagantes no mundo — e pesquisa para a missão habitada a Marte planejada para o início dos anos 2030.
Há uma informação que surpreende no mesmo prospecto: a SpaceX opera com prejuízo. O crescimento acelerado consome caixa mais rápido do que as receitas entram. O Starlink cresceu 180% em receita no último ano mas ainda não cobre os investimentos em infraestrutura orbital. A empresa aposta que o IPO resolve esse gap e financia o crescimento até a lucratividade — projetada para 2028.
Musk fica mais rico que a Tesla
Com US$ 1,77 trilhão de valuation, a SpaceX supera a Tesla, que vale hoje cerca de US$ 1,6 trilhão. Pela primeira vez na carreira de Elon Musk, um de seus ativos aeroespaciais vale mais do que o de automóveis. É uma virada simbólica e financeira: Musk passa a ter a SpaceX como seu ativo mais valioso nos mercados de capitais.
Musk detém aproximadamente 42% da SpaceX. Com a precificação atual, sua participação vale US$ 743 bilhões — sozinha. Isso o colocaria entre as maiores fortunas individuais já registradas na história da humanidade, superando com margem qualquer outra pessoa viva.
O maior IPO da história — em perspectiva
| IPO | Ano | Capital captado |
|---|---|---|
| SpaceX (SPCX) | 2026 | US$ 75 bilhões |
| Aramco (2ª oferta) | 2024 | US$ 11,2 bilhões |
| Alibaba (BABA) | 2014 | US$ 25 bilhões |
| SoftBank (JP) | 2018 | US$ 21,3 bilhões |
| Visa (V) | 2008 | US$ 19,7 bilhões |
A distância é brutal. A SpaceX não apenas quebrou o recorde — ela abriu 3x a distância para o segundo colocado.
Brazilians podem comprar SPCX?
Sim, mas com caminhos diferentes dependendo do perfil do investidor. Para quem tem conta em corretora americana (Interactive Brokers, Avenue, Nomad Invest e similares), a ação SPCX estará disponível na Nasdaq a partir do dia 12. O processo é o mesmo de comprar qualquer ação americana listada.
Para quem opera apenas no Brasil via B3, a história é mais complexa. BDRs (Brazilian Depositary Receipts) de SpaceX poderiam ser criados, mas a regulação da CVM exige que a empresa esteja listada em uma bolsa estrangeira reconhecida — o que acontecerá após o IPO. A Cetip e os grandes bancos-custodiantes precisam estruturar o produto, o que tipicamente leva de 3 a 6 meses após a listagem original. Espere BDRs de SpaceX disponíveis no Brasil entre setembro e dezembro de 2026.
Fundos de investimento brasileiros com mandato global (como os feeder funds de gestoras como Kinea, ARX e Garde) provavelmente já alocaram no IPO via sua estrutura offshore. Para o investidor de varejo no Brasil sem conta no exterior, a rota mais rápida é abrir conta em uma corretora americana — o processo leva de 1 a 5 dias úteis.
Risco: a SpaceX ainda dá prejuízo
O entusiasmo com o IPO não deveria obscurecer um dado concreto: a SpaceX não é lucrativa. O crescimento explosivo vem sendo financiado por rodadas privadas e agora pelo IPO. A trajetória para o lucro depende da escalabilidade do Starlink — que tem margens atraentes quando atingir volume crítico, mas ainda carrega o peso do investimento em infraestrutura.
O risco principal não é tecnológico. É de execução e tempo. Se os custos da Starship não caírem conforme o planejado, ou se o Starlink encontrar saturação de mercado antes de cobrir os gastos, o caminho para 2028 lucrativo fica comprometido.
Dito isso: quem comprou Nvidia em 2020 ouviu os mesmos alertas de risco. O mercado não está comprando o que a SpaceX é hoje — está comprando o que ela pode ser em 2035. Se a promessa de Marte se concretizar, US$ 135 por ação vai parecer barato daqui a dez anos. Se não, vai parecer caro desde o início. Esse é o trade.
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