Tem uma corrida silenciosa acontecendo no interior de São Paulo, no Rio Grande do Sul e no Ceará. Não é por terra agrícola nem por minério — é por um lugar onde caibam galpões cheios de servidores que vão treinar e rodar inteligência artificial. O Brasil entrou de vez nessa disputa, e os números que circulam são grandes o suficiente para mudar a paisagem econômica de cidades inteiras.
O anúncio que deu o tom foi o da Ascenty: R$ 30 bilhões para construir, em Sumaré, na região de Campinas, o primeiro complexo do país pensado exclusivamente para IA. Desse total, R$ 6 bilhões saem da empresa e de seus controladores; os outros R$ 24 bilhões viriam dos clientes, na forma de supercomputadores instalados ali dentro. Entre os interessados estão Microsoft e Oracle — nomes que não escolhem endereço por acaso.
Não é só Sumaré
O movimento é nacional. Em diferentes regiões, empresas aceleram para transformar o Brasil num polo global de data centers, surfando os cerca de US$ 3 trilhões que devem ser investidos no setor mundo afora nos próximos anos. Os projetos mais citados:
| Projeto / local | Destaque |
|---|---|
| Sumaré (SP) — Ascenty | 1º complexo dedicado a IA, R$ 30 bi |
| Tamboré (SP) | Maior campus de data centers da América Latina |
| Eldorado do Sul (RS) | Cidade inteira projetada para IA |
| Porto do Pecém (CE) | 1º data center do TikTok na América Latina |
O que une todos é a aposta de que o Brasil tem uma carta que poucos têm: energia majoritariamente limpa. Numa indústria que consome eletricidade como poucas, poder dizer que a máquina roda com hidrelétrica, eólica e solar vale ouro de marketing — e, cada vez mais, de regulação. É o tal do "data center verde".
A conta que ninguém gosta de ler
Aqui a história ganha o contraponto. Um data center tradicional de nuvem opera com 20 a 30 megawatts. Um data center de IA precisa de 150 a 200 MW — e alguns projetos miram a escala de gigawatts. É um salto de ordem de grandeza: a mesma área física que antes consumia o equivalente a uma cidade pequena passa a consumir como uma cidade média.
O efeito agregado já aparece nas projeções. Em 2024, os data centers responderam por cerca de 1,7% do consumo de energia elétrica do Brasil — 8,2 TWh. A estimativa é que esse percentual mais que dobre até 2029, chegando a 3,9% do total. Em quatro anos, o consumo elétrico desses centros deve dobrar. E energia mais disputada conversa diretamente com o que todo mundo paga: o tema dialoga com a pressão sobre a conta de luz em 2026.
Data centers de IA chegam a consumir até 5 milhões de galões de água por dia. Boa parte desse consumo está embutida na própria geração de energia que os abastece — não só no resfriamento dos servidores.
A água é o segundo nó, e talvez o mais sensível num país que já convive com crises hídricas. Especialistas das universidades federais vêm alertando que os incentivos do governo para atrair os projetos avançam mais rápido que o debate sobre o impacto em recursos hídricos. Resfriar milhares de processadores que esquentam o tempo todo exige água — muita —, e instalar isso perto de mananciais já estressados é pedir conflito.
Por que isso importa para o Brasil
Do lado bom, é investimento pesado, emprego em construção e operação, arrecadação e a chance real de o país ocupar um lugar de destaque na infraestrutura digital global. Hoje o Brasil tem 204 data centers em operação — mas nenhum deles foi projetado especificamente para IA. A Ascenty quer ser o primeiro a furar essa fila, e quem chega primeiro costuma definir o padrão.
Do lado da conta, há o risco de o país subsidiar com energia e água baratas uma indústria que exporta o valor para fora — os donos dos supercomputadores e dos modelos de IA estão, em sua maioria, no exterior. O desafio de política pública é garantir que o Brasil não vire só o "puxadinho energético" da IA mundial, mas capture parte do valor que ajuda a gerar.
O que esperar a seguir
A disputa agora é por regras. Quanto de energia o sistema aguenta destinar a esses centros sem pressionar a tarifa de todo mundo? Que contrapartidas o investidor assume em água e em reúso? Estados oferecem incentivo fiscal para atrair os projetos, mas a conta ambiental e elétrica é nacional — e acaba rateada.
O Brasil tem, de fato, uma vantagem rara para a computação sustentável. Transformá-la em ganho real, sem repassar o custo escondido para o consumidor e para os rios, é o teste que vem pela frente. Acompanhe mais análises de Economia → no KronGazeta.
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