R$ 20 bilhões de dívidas. Depois de um mês do Novo Desenrola: menos de R$ 3 bilhões. A ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, divulgou os números nesta terça-feira — e eles surpreendem mesmo quem acompanhou o primeiro Desenrola, que operou em escala menor e velocidade mais lenta.

O programa desta vez foi mais direto. Lançado em 4 de maio de 2026, o Novo Desenrola mira dívidas contraídas até 31 de janeiro de 2026, em atraso de 90 dias a dois anos. Isso inclui cartão de crédito, cheque especial e empréstimo pessoal — os três campeões de inadimplência do país.

Os números que chamam atenção

1,4 milhão de operações renegociadas em 30 dias. Desconto médio de 85% sobre o valor original. E o dado mais expressivo: 854 mil famílias — mais da metade dos participantes — quitaram a dívida inteiramente com o desconto aplicado. Não reparcelaram. Zeraram.

Para ter dimensão: o primeiro Desenrola, lançado em 2023, demorou quase oito meses para atingir resultados comparáveis. A aceleração desta edição tem uma explicação técnica: o novo programa integrou diretamente os sistemas das instituições financeiras, permitindo que a renegociação aconteça em tempo real pelo aplicativo sem necessidade de ir à agência.

Quem pode ainda se inscrever

O prazo do Novo Desenrola ainda está aberto. As condições:

  • Tipo de dívida elegível: cartão de crédito, cheque especial, empréstimo pessoal e crédito consignado privado
  • Data da dívida: contraída até 31 de janeiro de 2026
  • Situação do atraso: entre 90 dias e 2 anos de inadimplência
  • Renda: sem limite declarado — o programa atende tanto CPF quanto MEI

O acesso é pelo aplicativo do banco ou pela plataforma Desenrola.gov.br. Para quem está negativado no Serasa ou SPC, a renegociação inclui a limpeza do nome assim que o primeiro pagamento é confirmado — não precisa esperar quitar tudo.

Por que o desconto médio é tão alto

85% de desconto sobre a dívida original parece número impossível, mas tem lógica bancária por trás. Uma dívida de 90 dias a dois anos de atraso já foi provisionada como perda pelos bancos em boa parte dos casos. Recuperar 15% de algo que estava classificado como irrecuperável é melhor do que zero — e o banco evita o custo de cobrança judicial.

Os maiores descontos vão para dívidas mais antigas e de menor valor, onde o custo de cobrança supera o valor do principal. Uma dívida de R$ 500 em cartão de crédito com dois anos de atraso pode chegar à renegociação com desconto de 90% ou mais — porque perseguir juridicamente R$ 500 custa mais do que isso para o banco.

O que vem por aí: Desenrola Adimplentes

A ministra Miriam Belchior anunciou também que o governo vai lançar o Desenrola Adimplentes — uma versão do programa voltada para quem está em dia mas com juros altos, especialmente no cartão de crédito. Não há data confirmada, mas a declaração foi feita em coletiva oficial, o que sinaliza proximidade do anúncio.

Isso é relevante para quem não se encaixa no perfil atual: pessoas com dívidas ativas mas que nunca atrasaram, ou que têm cartão com juros rotativos acima de 400% ao ano — categoria que até hoje não tinha acesso a nenhum programa de renegociação subsidiada.

O impacto no consumo e na economia

854 mil famílias com nome limpo e dívida zerada em 30 dias têm efeito concreto no consumo doméstico. Quem estava negativado não conseguia cartão, não conseguia parcelas, não conseguia crédito para comprar eletrodoméstico ou pagar aluguel novo. Com o nome limpo, esse bloqueio cai.

O governo aposta que o Desenrola tem efeito multiplicador: cada R$ 1 de dívida zerada libera, na média histórica, R$ 0,40 de consumo adicional no semestre seguinte. Em 1,4 milhão de operações, o potencial de estímulo ao varejo é significativo — e chega num momento em que a inflação acima da meta (IPCA projetado em 5,09% para 2026) está comprimindo o poder de compra.

O Banco Central mantém a Selic em 14,75% para conter exatamente esse tipo de aquecimento. A ironia: o mesmo governo que combate inflação com juros altos está injetando crédito livre via renegociação de dívidas. Contradição ou complementaridade — depende de quem você pergunta na Esplanada.

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