2,8%. É a nova projeção da OCDE para o crescimento da economia mundial em 2026 — abaixo dos 3,4% registrados em 2025 e dos 2,9% que a própria organização projetava em março. E há um cenário pior: se a guerra no Oriente Médio se prolongar até 2027, o crescimento pode despencar para 2,1%.
A causa tem origem clara. A guerra que começou em 28 de fevereiro contra o Irã levou ao bloqueio do Estreito de Ormuz e ao disparo dos preços do petróleo. O encarecimento da energia e dos fertilizantes — dois insumos que atravessam toda a cadeia produtiva global — pressiona custos no mundo inteiro.
As projeções por país
O crescimento desigual mostra quem sofre mais e quem resiste melhor. No cenário otimista da OCDE (perturbações limitadas), as projeções para 2026:
| País / Região | Crescimento 2026 |
|---|---|
| Índia | 6,3% |
| China | 4,5% |
| Argentina | 2,8% |
| Espanha | 2,2% |
| Estados Unidos | 2,0% |
| Brasil | 1,6% |
| México | 1,3% |
| Zona do Euro | 0,8% |
| Alemanha | 0,7% |
| França | 0,7% |
O Brasil aparece com 1,6% — uma leve revisão para cima (+0,1 ponto) em relação à projeção de março. Pode parecer modesto, mas num cenário de desaceleração global, manter ou melhorar a projeção é um sinal positivo. O Brasil cresce mais que toda a zona do euro, mais que Alemanha e França.
Por que o Brasil resiste melhor
A resiliência brasileira tem uma explicação que conecta com outra notícia recente: o superávit comercial puxado por soja e cobre. Num mundo onde energia e fertilizantes ficam mais caros, países exportadores de commodities agrícolas e minerais têm uma vantagem relativa — vendem justamente o que o mundo precisa e está disposto a pagar mais caro.
As economias mais afetadas, segundo a OCDE, são as asiáticas (grandes importadoras de energia), os países em desenvolvimento sem base exportadora forte e, ironicamente, as nações do Golfo — que, apesar de produzirem petróleo, sofrem com a instabilidade regional direta.
A inflação volta a subir
O outro lado da moeda é a inflação. A OCDE projeta que a inflação média dos países do G20 vai subir de 3,4% em 2025 para 4,0% em 2026, recuando para 3,1% apenas em 2027. Energia cara contamina toda a cadeia de preços — do frete ao alimento.
Para o Brasil, isso reforça o cenário que o Banco Central já enfrenta com a Selic em 14,75% e o IPCA projetado em 5,09%. A pressão inflacionária global limita o espaço para cortar juros — o que afeta crédito, financiamento e consumo internamente.
O que a OCDE recomenda
A organização foi clara nas recomendações aos governos:
- Limitar no tempo as medidas de apoio a famílias e empresas — auxílios emergenciais não devem virar permanentes
- Não generalizar subsídios — focar a ajuda em quem realmente precisa, para não detonar o orçamento público
- Bancos centrais em vigilância — manter atenção redobrada sobre a dupla ameaça de inflação alta e crescimento fraco
Essa última recomendação é especialmente delicada. O cenário de inflação alta com crescimento fraco é o pesadelo dos economistas: a estagflação. Cortar juros para estimular o crescimento alimenta a inflação. Subir juros para conter a inflação sufoca o crescimento. Não há saída fácil.
Para o brasileiro, a leitura prática é dupla. A boa notícia: o Brasil está relativamente blindado, crescendo acima da Europa graças às commodities. A má notícia: um mundo que cresce menos compra menos, e a inflação global importada continua pressionando o bolso. O desfecho depende, em grande parte, de algo fora do controle de Brasília — quanto tempo vai durar a guerra no Oriente Médio.
